Uma crítica esquecida

•segunda-feira, 06/10/2014 • Deixe um comentário

*Este artigo está sendo publicado um pouco fora de hora se pensarmos na eleição de 2014, mas vale pelo caráter atemporal de sua crítica.

Chegando ao fim de mais um ciclo de campanha eleitoral, tradicionalmente também encerramos mais uma fase de críticas ao sistema político-eleitoral brasileiro. Assuntos como reforma política, horário eleitoral gratuito, voto distrital, financiamento público de campanha, fragilidade das urnas eletrônicas e tantos outros pontos devem acabar guardados pelos políticos (eleitos ou não) naquele cofre que só é aberto de quatro em quatro anos, afinal não é interesse deles e de seus partidos mexerem em um jogo onde eles estão ganhando. Por isso, antes de encerrar esse período gostaria de relembrar uma crítica que, mesmo centenária, praticamente foi apagada do debate político em todo mundo.

Há cerca de um século, o geógrafo e anarquista Élisée Reclus já apontava as falhas que se repetem até hoje na democracia representativa. (Crédito da foto: Anarkismo.net)

Em 1885, no artigo “Por que anarquistas não votam?”, o geógrafo e anarquista francês Élisée Reclus escreveu sobre a eleição: “É tão tolo quanto acreditar que os homens comuns como nós, sejam capazes, de uma hora para outra, num piscar de olhos, de adquirir todo o conhecimento e a compreensão a respeito de tudo. E é exatamente isso que acontece. As pessoas que elegemos são obrigadas a legislar a respeito de tudo o que se passa na face da terra: como uma caixa de fósforos deve ou não ser feita, ou mesmo se o país deve ou não guerrear; como melhorar a agricultura, ou qual deve ser a melhor maneira para matar alguns árabes ou negros”.
Passados quase 130 anos, a estrutura política (em especial no Brasil) não sofreu nenhuma alteração significativa para tornar inválido o argumento do francês. Ao contrário, na forma como a política é praticada hoje, a aprovação ou não de novas leis não segue o objetivo primário do bem comum, mas obedece a troca de favores (“você aprova o meu projeto, que eu voto no seu”), corrupção e outros interesses escusos que passam longe da confiança e dos interesses que os cidadãos depositaram nas urnas junto dos nomes de seus candidatos.
O único modo de acabarmos com isso é não deixarmos que os políticos guardem essas pautas e reivindicações tão necessárias para a evolução da estrutura política brasileira. Para tanto, é preciso que na manhã da próxima segunda-feira não levantemos com o pensamento focado somente em mais um dia de trabalho, mas que alimentemos também os debates sobre todos os problemas que perpassam e dominam nossa estrutura política, desde o âmbito municipal até o federal, participando de conversas, nos abastecendo com leituras e participando de mobilizações em prol de causas que acreditemos justas. Política não se faz nas urnas, mas fora delas!

Quando o Porta dos Fundos encontrou Levy Fidelix na sauna da homofobia

•quinta-feira, 02/10/2014 • Deixe um comentário

Declaração homofóbica de Fidelix no debate da Record chocou e mobilizou brasileiros

Enquanto a candidata Luciana Genro arqueava suas sobrancelhas quando seu adversário Levy Fidelix defendeu que os homossexuais deveriam ser “atendidos bem longe da gente” em sua tréplica no debate da noite deste domingo na Record, muita gente do outro lado da TV ainda estava boquiaberto com o que o eterno candidato de negros bigodes tinha falado em suas considerações iniciais sobre a união homoafetiva. Com Eduardo Jorge ainda chocado, o assunto já tinha tomado conta das redes sociais.
Grupos organizavam beijaços, outros ações judiciais, o Tiririca mostrava que sabe que não se formam famílias só para se reproduzir e a hashtag #LevyVocêÉNojeto era compartilhada sete mil vezes apenas nas duas horas seguintes da declaração em rede nacional. Uma revolta justa contra uma declaração homofóbica e que incitava o ódio contra os homossexuais. Uma declaração que assustadoramente – mesmo que não surpreendentemente – também ganhou muitos defensores (só a página do candidato no Facebook apresentou, até hoje, um crescimento de 93% em relação a semana anterior).
Mas foi ainda em meios as críticas e ataques ao Fidelix que na tarde da última segunda-feira um vídeo do grupo Porta dos Fundos do ano passado voltou a superfície nas velozes correntezas da web. No vídeo, durante um debate eleitoral, o candidato Amarante acusa seu adversário de que mesmo sendo contra o casamento homoafetivo e as pautas LGBT foi flagrado saindo de uma sauna “de mãos dadas com um rapaz conhecido como Sândalus, o Doutrinador”. Gaguejando, o candidato Montenegro com seu bigode negro que lembra em muito o de Fidelix se defende, dizendo que a acusação é mentirosa, que ele é o candidato da família brasileira e que ele gosta “da pepela, da xixila, da vagina”, antes de se perder em um prazeroso desvaneio onde simula fazer sexo oral em um homem com riqueza de detalhes.

O bigode é parecido, a homofobia também. (Crédito: YouTube)

O bigode e o discurso foram suficientes para que o candidato fictício Montenegro fosse associado ao verídico Fidelix na forma de uma doce vingança acompanhada de risadas. Risadas e vingança homofóbicas, como o discurso do candidato do PRTB.
Assim como muitas vezes não notamos o machismo e o racismo implícito em expressões, xingamentos e piadas, também não percebemos a homofobia em algumas piadas e ofensas que reproduzimos todos os dias. Afinal, os corriqueiros “seu gay” ou “veado”, assim como o “sua mulherzinha” e tantos outros, não têm outro objetivo senão desmerecer alguém ao igualá-lo a homossexuais. Mas o que existe de tão negativo em ser homossexual (ou ser mulher, ou negro) que ofenderia alguém ao ser acusado de sê-lo? Por que é engraçado fazer piada de alguém, mesmo que este alguém seja um político, por ter que esconder sua sexualidade atrás de uma cortina de conservadorismo em uma sociedade machista e homofóbica como a brasileira?
O ressurgimento desse vídeo do Portas dos Fundos não mostrou uma possível profecia ou premonição do discurso de Fidelix um ano depois, mas mostra que os dois, mesmo que muitas vezes antagônicos, em alguns momentos se encontram na escura sauna da homofobia.

A abelha que voou até o sol

•terça-feira, 16/09/2014 • Deixe um comentário
(Crédito da foto: John Lodder)

(Crédito da foto: John Lodder)

Depois de um longo dia de trabalho em busca de flores, duas abelhas operárias se encontraram mais uma vez no mesmo galho, da mesma grande árvore para descansarem antes de voltarem para colmeia sem muito polem.

– Veja, disse a mais jovem das duas abelhas, que pôr do sol maravilhoso!

– Estou tão cansada que nem consigo levantar meus olhos, disse a outra. Só me deixe descansar um pouco antes de voltarmos para casa. Está cada dia mais difícil achar flores e a rainha vai mandar que trabalhemos ainda mais amanhã.

– Eu acho o pôr do sol tão lindo, continuou a primeira quase que ignorando o que sua companheira dizia. Eu queria sair voando atrás do sol, descobrir para onde ele leva sua beleza depois que vai embora todas as tardes….

– Deixe de bobagens, interrompeu a abelha mais velha enquanto se preparava para voar de volta para casa. O sol não vai a lugar nenhum. Ele só dá voltas e voltas. Nada de bonito, só uma cansativa repetição, como nosso trabalho.

– Nosso trabalho também é muito bonito! Sem ele não teríamos o doce mel, nem as belas flores na primavera, respondeu a sonhadora abelhinha.

– O mel que fazemos fica quase todo para a rainha e seus filhos e as flores estão sumindo mais e mais a cada ano. Agora deixe de bobagens e vamos embora.

As duas amigas voaram de volta para a colmeia para entregar o fruto do seu trabalho para as outras operárias que trabalhavam na produção do mel.

– Só isso!, exclamou a abelha que conferia o que as duas amigas tinhas coletado no campo. Como vocês esperam que passemos o outono e o inverno só com isso? Não dá nem para a rainha e seus filhos!

– Nos voamos o máximo que pudemos e não achamos nada, respondeu ofegante a abelha mais velha. As flores estão acabando a cada ano.

– Não me interessa!, respondeu a superiora. Se vocês não produzem, quem leva a bronca sou eu. A rainha vai ficar uma fera se não produzirmos mais mel. Amanhã quero as duas saindo bem cedo para achar mais e melhores flores.

– Mas nós já saímos ao nascer do sol hoje e voltamos só depois do pôr do sol. Como você quer que trabalhemos mais?

– Saiam ainda mais cedo e voltem ainda mais tarde ou vou ser obrigada a expulsar vocês duas da colmeia.

– Por favor, não faça isso!, suplicou a mais velha das abelhas. Nós nos esforçamos muito, não seria justo nos mandar embora. Morreríamos de fome lá fora!

– Então tragam muito polem amanhã!

– Eles não podem fazer isso conosco!, exclamou indignada a mais jovem enquanto caminhava para dentro da colmeia. Nós trabalhamos duro, nós dão o mel mais amargo e ainda querem nos expulsar!

– Eles vão fazer isso, disse desanimada a mais experiente das duas. Já fizeram antes e vão fazer de novo. Eles não estão nem aí para nós. Arrumam outras para colocarem no nosso lugar rapidinho. Por isso, não reclame, se não eles não te darão nem mais uma chance.

– Se me expulsarem daqui, sairia voando em direção ao sol e só pararia quando encontrasse o lugar onde ele vai com toda sua beleza, respondeu a sonhadora abelhinha.

– Para de falar bobagens, reprimiu a mais conformada delas. Fora daqui não sobreviveríamos um dia e o sol está muito longe para você alcançá-lo. Agora vamos dormir, que amanhã precisamos acordar bem cedo.

– Você não vai comer?

– Não, estou muito cansada e amanhã precisamos acordar ainda mais cedo. Boa noite!, disse cabisbaixa a mais velha das amigas.

– Até amanhã, respondeu a mais nova.

Antes do nascer do sol na manhã seguinte, as duas amigas se encontraram mais uma vez na porta da colmeia e se despediram antes de partir para mais um dia de trabalho duro.

Depois de trabalhar durante todo dia, voando longe atrás de algumas flores ainda carregadas de polem, a abelha mais velha parou no mesmo galho, da mesma grande árvore onde se encontrava com sua jovem amiga todos os dias. Mas naquele dia ela não estava lá admirando o pôr do sol. A abelha esperou até o cair da noite sem sinal de sua companheira. Preocupada, carregada e cansada, ela voou de volta para a colmeia com a esperança de encontrar sua amiga já em casa.

– Onde está sua amiga?, perguntou a superiora na entrada da colmeia.

– Não sei. Ela ainda não chegou?

– Não! No mínimo aquela preguiçosa deve ter resolvido nós abandonar! Agora todas teremos que trabalhar ainda mais para compensar o sumiço dela. Amanhã pode levantar ainda mais cedo e avise suas amigas para fazerem o mesmo!

A abelha mal conseguiu ouvir o que sua chefe dizia. Só conseguia pensar no que teria acontecido com sua jovem amiga.

Sonhos impossíveis podem não se realizar, mas só ao segui-los chegaremos a mundos melhores. (Crédito da foto: Noel Coates)

Sonhos impossíveis podem não se realizar, mas só ao segui-los chegaremos a mundos melhores (Crédito da foto: Noel Coates)

No dia seguinte, depois de muito trabalhar, a abelha se dirigiu para o mesmo galho, na mesma grande árvore, na esperança de reencontrar sua amiga desaparecida. E assim, a experiente abelha fazia todos os dias: pouco antes do pôr do sol se dirigia ao mesmo galho, da mesma grande árvore, onde a única lembrança que sua companheira tinha deixado era o pôr do sol, que tinha deixado de ser entediante, para ficar cada dia mais belo nos olhos da já cansada abelha operária, como tanto insistia sua amiga sonhadora.

– Sabe que aquela sonhadora até que estava certa, pensou em voz alta enquanto voltava para colmeia com as patas carregas de polem e o corpo cansado de tanto trabalhar. O pôr do sol é realmente lindo! Espero que onde quer que minha jovem companheira esteja, ela tenha encontrado o lugar para onde o sol leva toda sua beleza…

Depois de uma semana, a agora solitária abelha já não tinha mais esperanças de rever sua amiga, mais ainda sim voava todos os dias para o mesmo galho, da mesma grande árvore para ver o pôr do sol. Aqueles poucos minutos tinham se transformado no melhor momento de seus dias marcados por longas e duras jornadas de trabalho: era um momento único de beleza, que se renovava a cada dia, assim como as esperanças da pequena abelha que sonha em dias melhores.

– Bonito, não?, disse uma voz alegre que assustou a solitária e trabalhadora abelha.

– Quem está ai?, respondeu nervosa.

– Sou eu, sua jovem companheira.

– Como assim?, disse sem entender a mais velha da dupla. Por onde você esteve todos esses dias?

– Eu voei em direção ao sol. Como eu sempre sonhei!

– E o que você achou? Descobriu para onde o sol leva toda sua beleza?, perguntou animada e cheia de esperanças a abelha mais experiente.

– Não, disse a outra, mas achei algo muito melhor! Um campo cheio de flores coloridas e perfumadas, onde todas as abelhas trabalham e dividem todo o mel. Sem rainha, sem chefes. Lá todas trabalham para todas e só se come o mais doce dos méis.

– Mas se lá é tão bom, por que você voltou para cá, onde a rainha maltrata nossos chefes, que nos maltratam e onde todo mel doce fica para aqueles que pouco ou nada fazem?, perguntou a mais velha.

– Voltei para te buscar e buscar quem mais quiser vir conosco.

Assim, as duas companheiras voaram para a nova colmeia, voltando todos os dias em busca de suas antigas companheiras propondo uma vida nova e justa em uma nova colmeia.

Sonhos impossíveis podem não se realizar, mas só ao segui-los chegaremos a mundos melhores.

*Esse texto faz parte de um projeto que deve reunir diversas fábulas infantis com conteúdo libertário.

Por que eu não gosto de Game of Thrones ou quem se interessa por histórias de reis e rainhas?

•terça-feira, 19/08/2014 • Deixe um comentário

Já era hora de dormir e, como acontecia quase todas as noites, as crianças pediram para que os pais contassem uma história para que dormissem. Ambos subiram e decidiram contar uma história de princesa, com seus castelos, lindos vestidos de seda, colares de joias, campos verdejantes que iam além de onde a vista podia alcançar. Uma história que já tinha sido contada uma dezena de vezes que encontrava seu final em beijos carinhosos de boa noite, quando as crianças não dormiam antes do “Viveram felizes para sempre”.

Mas naquela noite foi diferente. No lugar do doce desejo de boa noite, Maria perguntou assim que a história terminou:

– Mamãe, como a princesa conseguiu comprar tantas joias e vestidos de seda se ela nunca trabalha?

A capciosa e inesperada pergunta surpreendeu a mãe que ainda balbuciava quando Joãozinho, como o espírito indagador de toda criança, seguiu o exemplo da irmã com outra pergunta:

– Com um castelo tão grande e tanta terra, o rei deve trabalhar muito! Como o senhor, não é papai?

Maria, mais velha, já começava a demostrar a interiorização do machismo presente em nossa sociedade, e seguiu a sabatina preocupada com a limpeza e organização do castelo:

– Nossa, com um castelo tão grande e um rei tão comilão, a rainha deve ter que trabalhar o dia todo para deixar o castelo limpinho e fazer a comida. Coitada dela!

Os pais, surpresos, tentaram explicar a injustiça que separa o mundo entre aqueles poucos que vivem em castelos rodeados de joias, comidas e campos verdejantes e enquanto muitos morrem de fome e frio sem ter terra nenhuma para construir um casebre para se proteger.

Naquela noite, história nenhuma fez com que os pais conseguissem dormir bem.

*****

Há uns meses fui tomado pela curiosidade de conhecer o universo criado por George R. R. Martin em Game of Thrones. Uma simples curiosidade, nada de mais. Talvez por isso, tenha logo abandonado a ideia de conseguir um dos livros e optado pela série de TV.

Nem tudo é ruim em Game of Thrones. “Não quero casar com um guerreiro, quero ser uma!”, Arya Stark traz uma brisa de feminismo em meio a história dos opressores. (Clique na foto para o crédito)

Nem bem o primeiro episódio tinha acabado e a insatisfação já começava a rondar minha mente. Ao final daquela primeira noite, com três ou quatro capítulos, a incerteza já tinha se transformado em certeza: algo ali não me agradava. “Deve ser essa história fantástica. Já gastei muito tempo tentando compreender as nuances e conhecer a história do nosso mundo para agora ter que aprender sobre uma outra realidade, um outro mundo. Só pode ser isso! O que também explicaria porque nunca me atraí pelas histórias de Tolkien, C. S. Lewis, Howling e outros que não conheço por não ter tido a menor vontade de conhecer criadores de novos mundos, enquanto ainda tinha tanto para conhecer do nosso mundo.”

Persistente como sou, não poderia desistir de Game of Thrones. Queria descobrir porque aquele mundo semifantasioso movia a paixão de tanta gente. Eu também queria descobrir o que não me agradava naquela história. Minha primeira explicação não me bastava.

Não precisei chegar ao final dos dez episódios da primeira temporada – que fiz em menos de uma semana – para descobrir o verdadeiro motivo do meu desgosto e indiferença para com a série. A resposta era simples e clara: afinal, quem gosta de histórias de reis e rainhas? Histórias de homens escolhidos com mulheres, em sua maioria, subalternas, que dormem em grandes camas ao lado de suas quentes lareiras dentro de enormes castelos, enquanto aqueles que trabalham para construir a riqueza do reino morrem de frio, fome e doenças em casebres em ruínas nas zonas mais escuras das florestas verdejantes por onde princesas são cortejadas por príncipes com o único objetivo de consolidar e estender seu poder sobre o povo.

A história que me interessa não é de quem come nos grandes banquetes servidos nos salões reais, mas de quem cultivou o gado que alimenta os nobres com o estomago roncando de fome. A história que me interessa não é a do complô em torno da morte da Mão do Rei, mas das pessoas que morreram construindo o reino. A história que me interessa não é como os Targaryen vão juntar um exército para libertar seu povo, mas se esse povo realmente sabe o que se passa entre seus governantes. A história que me interessa não é a de quem vai sentar no Trono de Ferro, mas de quem forjou cada uma daquelas espadas que formam o trono. A história que deve nos interessar é justamente aquela esquecida em Game of Thrones. É a história do povo que trabalha não só para sobreviver enquanto reis e rainhas brincam de tabuleiro em grandes orgias, mas que também é obrigado a alimentar com o que há de melhor aqueles que nem ligam para sua existência.

O melhor fim para a série de George R. R. Martin é que todos os Lannister, Targaryen, Snow, Stark, Baratheon e Greyjoy se matem na guerra pelo trono, deixando o povo livre para construir o reino de si mesmo.

Uma história da elite brigando pelo trono. Qualquer semelhança com a política é mera coincidência. (Crédito: http://j.mp/1kQxiz6)

Jornalismo: a arte de fazer perguntas

•sexta-feira, 09/05/2014 • Deixe um comentário

Gilles Deleuze e Félix Guattari responderam à clássica pergunta “o que é a filosofia?” com uma resposta que tornou-se tão famosa quanto à própria questão: “A filosofia é a arte de formular, de inventar, de fabricar conceitos”. Conceitos que são frutos do pensamento e da experiência de quem os formula, conceitos que se mantêm vivos sendo transformados e recriados entorno de seu problema original.

Da mesma forma, o jornalismo pode se apropriar da definição da dupla francesa para definir-se como a arte de formular, de inventar, de fabricar perguntas. Perguntas que saem do pensamento do jornalista, de seus conhecimentos, experiências e reflexões sobre problemas que entremeiam, muitas vezes nas mais recônditas entranhas, as mais diversas camadas e segmentos da sociedade. Assim, fazer jornalismo se distância do processo ritualístico de dar voz ao que é notório, das entrevistas rituais e das respostas prontas para perguntas óbvias, para ganhar um novo sentido e maior profundidade no primeiro ato de criação do jornalista: o ato de criar as perguntas. Seja na pergunta que orienta uma pauta ou na pergunta que tira o entrevistado de sua zona de conforto para colocá-lo na posição de explicar o que está sempre escondido dos olhos do leitor-médio.

Ver o jornalismo como a arte de formular perguntas, dá uma nova centralidade para o leitor e para o jornalista (Crédito)

Essa definição de jornalismo também desloca da resposta do entrevistado para a o processo cognitivo do leitor a centralidade da comunicação jornalística. Não é mais ouvir o que o entrevistado tem para dizer, mas fazer o público compreender que ali, onde não se imaginava, existe uma pergunta que, se não foi respondida, necessita ser repetida continuamente. Desta forma também trazemos novas vozes para o jornalismo, vozes que ganham mais destaque na sociedade informacional contemporânea e que se distanciam do jornalismo tradicional – em sua forma e\ou seus meios – para trazer à tona perguntas que, muitas vezes, já estavam a pique.

E esta semana foi emblemática (e também força motriz) para exemplificar essa definição de jornalismo.

O primeiro caso foi o do blogueiro Rodrigo Grassi, que interpelou o senador pelo PSDB paulista Aloysio Nunes nos corredores do senado para responder algumas perguntas sobre as Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs). O que se inicia com uma entrevista ritual, que só incomoda o senador pela inesperada abordagem, logo levanta a poeira que cobre um corpo que se recusa a se decompor e virar uma rica matéria orgânica para a história política do Brasil: o controle das investigações parlamentares paulistas pelo PSDB e os casos de corrupção do partido e seus aliados.

Para isso, Grassi precisou de apenas duas perguntas: “O que o senhor tem a dizer pelo fato do seu partido lá em São Paulo ter enterrado 70 CPIs?” e “E o suposto envolvimento do senhor (com o caso de corrupção no metrô paulista)?”. Mesmo sem obter respostas para suas perguntas, o blogueiro permitiu que seus espectadores abrissem os olhos para uma história relegada ao segundo plano em um momento onde o foco está sobre o brinquedo novo da grande imprensa: a refinaria de Pasadena.

Já para o jornalista Ricardo Boechat foi necessária somente uma pergunta para ganhar um processo do senador pelo PMDB Roberto Requião, que lhe rendeu em uma condenação em primeira instância de seis meses de prisão, convertidos em serviços comunitários.

Na verdade, a pergunta feita da bancada do Jornal da Band em 2011, não foi nem de autoria do âncora. Foi do repórter da Rádio Bandeirantes Victor Boyadjian, que mais cedo naquele dia perguntou ao senador paranaense sobre a aposentadoria irregular que receberia como ex-governador do Paraná. A pergunta ficou sem resposta, mas no lugar do processo movido contra Boechat, Boyadjian teve seu gravador tomado por Requião, que apagou a entrevista. De qualquer forma, a destempere de Requião não foi capaz de impedir que a população voltasse a se perguntar sobre as gordas aposentadorias recebidas por ex-governantes em um país onde ser político é, em muitos casos, uma profissão.

Os conceitos de Deleuze e Guattari estão longe da ideia estática que qualquer definição possa dar para as perguntas filosóficas. O que importa para os filósofos é o ato de criação, o movimento que a busca por uma resposta mais precisa e sempre incompleta possibilita. Da mesma forma, o jornalismo precisa estar ciente da potência motora que as perguntas certas têm sobre o mundo, a capacidade de fazer o mundo girar e sair do universo estático das entrevistas rituais.

Fogo para quem não tem voz

•terça-feira, 29/04/2014 • Deixe um comentário

“Mas é perturbadora a sensação de que a população, sobretudo a mais humilde, se sente como presidiários, que só conseguem chamar a atenção quando tocam fogo em alguma coisa”.

Eu classifico como muito feliz a escolha do repórter André Petry das palavras finais da matéria “Um país em chamas”, publicada na última edição da revista Veja. Uma exceção para um texto que evidência o preconceito social do autor logo em suas primeiras linhas e que coloca, em diversas oportunidades, as revoltas populares e ações de organizações criminosas em um mesmo cesto.

Quem não tem voz, grita com fumaça (Créditos)

Sentado na frente da tela de um computador, Petry conseguiu definir em poucas linhas não só o sentimento latente de milhares de moradores marginalizados nas favelas, esquecidos no interior do Nordeste, ilhados em meio ao voraz mar de carros que toma conta das cidades ou em meio aos latifúndios semiprodutivos que tomam conta do campo, mas também mostrar como a imprensa tradicional, muitas vezes, é incapaz de folhear as páginas de suas próprias publicações e consciências para encontrar a resposta daquilo que tanto a perturba.

Basta pegar a própria edição 2371 da Veja para ver (com o perdão do trocadilho) que aqueles que “como numa regressão pré-histórica”, usando as palavras do autor, não encontram na tinta da grande imprensa a voz que tanto precisam. Nem mesmo na matéria em que são personagens, os incendiares ganham voz, preferindo o repórter e os editores ficarem na proteção do ar-condicionado e das grossas paredes que separam a redação da miséria que salta a vista de quem circula, mesmo que distraidamente, por qualquer parte da cidade mais rica do país. A escolha é o caminho mais prático e fácil para quem busca dar uma cara de informação para discursos ideológicos: entrevista-se intelectuais por telefone em busca de frases que corroborem com aquilo que já está decidido e escrito.

Ao invés disso, prefere-se investir a cada vez mais enxuta renda da mídia impressa na busca por números (“Em seis eleições, duas viradas”), histórias (“Dois lados de um mesmo problema”) e hipóteses (“As turbinas em risco”) que tentam abalar a possível reeleição da presidenta ou em matérias de grande relevância, como histórias de sucesso de investimento de longo prazo nos Estados Unidos (“Lições de valor”), críticas ideológicas disfarçadas em uma resenha de “O Capital no Século XXI”, sucesso nos Estados Unidos e ainda inédito no Brasil (“Utópico e delicioso”) e as imperdíveis “Escovas progressistas”, sobre o mercado de beleza de luxo que muitas vezes parece mais a sátira de uma elite presa à aparência e à ostentação de produtos que, literalmente, se desfazem em pó, e “Mulher do Joesley, não!”, uma ode às mulheres “bonitas, bem-nascidas e bem-sucedidas” que agregam valores aos maridos chucros.

Talvez, se André Petry tivesse optado por deixar o telefone no gancho e, da mesma forma que seus colegas foram conferir as 15 colunas de cristais de um salão de beleza em Curitiba e entrevistaram a consultora visual daquela que levou glamour ao mercado de carne, ele poderia ver que aqueles “seres pré-históricos” não estavam redescobrindo o fogo, mas dando novos usos aos tradicionais sinais de fumaça.

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“Eu detesto a entrevista. Tenho a impressão de que é um convencionalismo. […] Por outro lado, a reportagem, que acho que foi inventada pelos jornalistas norte-americanos, não se pratica tanto como se deveria. Isto é, contar o que aconteceu para que o leitor saiba o que aconteceu como se tivesse estado no local. Esta é a parte que mais me preocupa do jornalismo atual” – Gabriel García Marquez.

Dias frios de outono

•quarta-feira, 23/04/2014 • Deixe um comentário

(Este post foi originalmente publicado, no dia 21 de março de 2013, no blog Crônicas para Dublin, agora desativado, e que teve seu conteúdo transferido para esse blog dentro de um projeto de reativação do mesmo)

O despertador tocou às 7h da manhã e, como faço todos os dias, dei um único e automático toque na tela para ganhar mais alguns minutos de sono. Quando finalmente levantei, nem notei que a janela que estava entre aberta na noite anterior, agora, encontrava-se fechada e coberta até quase a metade com gotas de chuva. Já no carro, mais desperto, o céu meio acinzentado era prenúncio de um dia agradável que antecipava o outono, marcado para começar dentro de poucos dias. O dia se manteve assim, garoas esporádicas e rápidas, um frio agradável e algumas nuvens que impediam que a luz do sol chegasse de forma tão intensa ao chão molhado. Na hora do almoço, a paisagem que via da janela ganhou contornos acolhedores com o vento que me acompanhou durante a caminhada até em casa.

Os dias transcorriam com a mesma rotina de sempre, dividida entre trabalho, faculdade, namorada e família, mas durante quase uma semana o clima inesperado trazia à minha mente uma ideia constante de adaptação. Aqueles dias frios, chuvosos e com muitos ventos eram uma referência direta a tudo o que eu tinha lido em muitas páginas e blogs sobre o clima dublinense. Os mais místicos podem entender isso como um presságio da viagem que está cada vez mais perto de se concretizar, para mim, o clima outonal vinha acompanhado de um único desejo: “se mantenha assim pelos próximos cinco meses”.

Ontem levantei 45 minutos antes do outono começar de forma oficial. O céu fechado e a temperatura baixa continuavam presentes do lado de fora da janela, que nessa manhã permanecia aberta, como deixada na noite anterior, já que a chuva tinha dado uma pausa ao longo da madrugada, mas o anúncio da nova estação na TV veio contrastar com o que eu via lá fora e com o que eu tanto desejei durante toda semana que se passou: “o outono deve ter temperaturas um pouco mais altas que o normal”, anunciava a jornalista.

Autumn in Dublin

Outono no St. Stephen’s Green Park em Dublin (Crédito: http://bit.ly/gz4zAl)

Hoje, na primeira manhã completa da nova estação, escrevo esse texto conformado que a informação recebida na manhã anterior não devia ser mais um erro. As ruas já estão secas, mesmo com a forte tempestade que caiu a noite toda, as nuvens que ainda ocupam o céu, não são capazes de deter os raios de sol e os termômetros são dispensáveis para quem quer constatar que o frio está indo embora, a pele basta. O conforto que me resta é saber que, em poucos meses, devo ser recebido na Ilha Esmeralda por um clima muito semelhante ao que me acompanhou nesses últimos dias.

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Esse novo post, que volta a mexer nas águas paradas deste blog após mais de uma semana, vem acompanhado e inspirado em uma boa notícia: finalmente eu fechei o intercâmbio! E tudo saiu melhor que o planejado, após receber um orçamento inesperado e negociar muito com o pessoal da BFA, consegui fechar com uma das melhores escolas de Dublin, a CES, e com um preço um pouco acima do meu orçamento inicial. Agora, é correr atrás dos outros detalhes, como passagem, dinheiro, malas, passaporte – que já está pronto, só preciso ir pegar – e, o mais importante, me formar!

Nesse meio tempo, vou tentar ser mais regular nas publicações, mas os trabalhos da faculdade (caracterizados essa semana pela produção de um curta metragem escrito, gravado e editado em menos de 15 dias) e a falta de inspiração (ideias até vieram e textos começaram a ser escritos, mas não ficaram agradáveis e foram deixados de lado momentaneamente) acabaram por consumir boa parte do tempo.